domingo, 4 de maio de 2008

Entrevista excelente

A seguir, reproduzo excelente entrevista publicada no jornal Folha de São Paulo de hoje - 04/05. A entrevista é excelente por conta da sinceridade e transparência. Claro, destaco também os fatos vividos pelo entrevistado. Não sabia que os militares brasileiros participaram ativamente do golpe no Chile. Leiam a entrevista a seguir e comentem!
ENTREVISTA PAUL AUSSARESSESA tortura se justifica quando pode evitar a morte de inocentes

General francês, que ensinou tortura a militares brasileiros, confirma atuação do país em golpe contra Salvador AllendeLENEIDE DUARTE-PLONCOLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE PARIS O GENERAL francês Paul Aussaresses, 89, é a memória viva dos atropelos aos direitos humanos praticados durante a ditadura brasileira (1964-1985). Ex-agente do serviço secreto da França, veterano das guerras do Vietnã e da Argélia, Aussaresses colaborou com o regime militar no Brasil, ensinando aos oficiais técnicas de tortura e também de combate à guerrilha."No curso, os estagiários representavam o papel dos torturadores e dos torturados", afirmou o militar reformado, no livro "Je N'ai Pas Tout Dit - Ultimes Révélations au Service de la France" (Eu não contei tudo - últimas revelações a serviço da França), que acaba de ser lançado em Paris. A obra é uma série de entrevistas concedidas ao jornalista Jean-Charles Deniau. Em suas revelações, Aussaresses revelou que o governo Médici forneceu armas e aviões para o golpe militar que derrubou o presidente chileno Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973. E vai além, ao relatar que o ex-presidente João Baptista Figueiredo, então chefe do SNI (Serviço Nacional de Informações), o telefonou para dizer que seus homens haviam torturado e matado um "francês subversivo", em referência a Laurent Schwartz. Aussaresses recebeu a Folha para uma longa entrevista na casa que tem na Alsácia. Não se furtou a reiterar tudo o que disse no livro e acrescentou que não se arrepende de nada, mesmo que seu livro anterior o tenha levado a responder a um processo por "apologia de crimes de guerra". "Acho que Figueiredo apreciou minha conduta em relação aos brasileiros. Minha colaboração foi frutuosa para eles e para nós", disse.



FOLHA - O senhor viveu no Brasil entre 1973 e 1975. Qual sua missão junto à embaixada francesa?

PAUL AUSSARESSES - Eu era adido militar.


FOLHA - O sr. fazia trabalho de informação?

AUSSARESSES - É isso que os adidos militares fazem. Todos eles se informam sobre o que pode interessar a seus países e sobretudo as necessidades do país no qual servem, do ponto de vista do que podemos vender a eles.

FOLHA - Naquela época, a França já vendia armas ao Brasil?

AUSSARESSES - Claro. Havia muito tempo existiam adidos militares no Brasil. O chefe era do Exército, mas havia um da Aeronáutica e um oficial de Marinha. O Brasil tinha se interessado pelos aviões franceses fabricados pela Société Dassault. O Mirage.

FOLHA - Em seu livro, há um capítulo em que o senhor narra os cursos de interrogatório e informação a oficiais no Centro de Instrução de Guerra na Selva, em Manaus. Quais eram suas atribuições?

AUSSARESSES - Eu dava aulas nessa escola militar porque tinha sido instrutor das Forças Especiais do Exército Americano no Fort Bragg. Fui nomeado instrutor dos pára-quedistas da infantaria americana em Fort Benning, na Geórgia, e me pediram para ser também instrutor em Fort Bragg, na Carolina do Norte. Isso foi nos anos 60. Nessa escola, encontrei oficiais estagiários das forças especiais de vários países da América do Sul.

FOLHA - Inclusive do Brasil?

AUSSARESSES - Exatamente.

FOLHA - Quem eram esses oficiais?

AUSSARESSES - Não me lembro de seus nomes. Lembro de Umberto Gordon, que se tornou chefe das Forças Especiais do Chile, a DINA, o serviço secreto de Pinochet. Éramos muito amigos.

FOLHA - O senhor chegou ao Brasil em outubro de 1973, pouco depois do golpe militar do Chile. O Brasil participou ativamente no golpe contra Allende?

AUSSARESSES - Que pergunta! Você pensaria que sou um idiota se não estivesse a par. Claro que o Brasil participou!

FOLHA - O senhor conta no livro. Gostaria que repetisse. O Brasil enviou aviões e armas? AUSSARESSES - Mas claro, armas e aviões.

FOLHA - E enviou oficiais também?

AUSSARESSES - Sim, claro. As armas não sei dizer exatamente quais. Mas os brasileiros enviaram aviões franceses com projéteis fabricados na França pela sociedade Thomson-Brandtà

FOLHA - Para a qual trabalhou depois, quando saiu do Exército.

AUSSARESSES - Exatamente.

FOLHA - O senhor foi muito amigo de João Baptista Figueiredo, chefe do SNI e último presidente militar. Ele e o delegado Sérgio Fleury eram os responsáveis pelos esquadrões da morte brasileiros, como o senhor escreveu?

AUSSARESSES - É uma maneira de falar. Nós não chamávamos assim. Sérgio Fleury era o responsável pelos esquadrões da morte e Figueiredo, pelo SNI. O embaixador Michel Legendre não podia ouvir falar de esquadrões da morte.

FOLHA - O sr. diz que o embaixador não suportava Sérgio Fleury. E de Figueiredo, tinha melhor impressão?

AUSSARESSES - Um dia o embaixador me disse: "Você tem amigos estranhos". Eu respondi: "São eles que me permitem manter o senhor bem informado". Ele não disse mais nada.

FOLHA - Como seu trabalho era importante para a França?

AUSSARESSES - Todas as informações são importantes. Mas era sobretudo para mostrar que a França era um país amigo. Os brasileiros tinham a necessidade de tal material, estávamos dispostos a vender. Tinham necessidade de fabricar.

FOLHA - De quais materiais?

AUSSARESSES - Materiais de aviação. Tínhamos conhecimentos técnicos, mas o que era importante é que podíamos ir aos nossos superiores pedir informação para os brasileiros.

FOLHA - No livro o sr. narra o episódio de tortura de uma mulher que veio ao Brasil para, segundo o general Figueiredo, espionar o senhor. Figueiredo o fez vir de Manaus às pressas para mostrar a moça, já irreconhecível depois das sessões. Ele depois o informou que ela morrera no hospital. Nunca questionou o método bárbaro usado para obter informações daquela mulher?

AUSSARESSES - De jeito algum! A morte dessa mulher era um ato de defesa.

FOLHA - Qual é sua impressão sobre os presidentes militares: Ernesto Geisel, João Figueiredo e Garrastazu Médici?

AUSSARESSES - Ernesto Geisel era um homem racional, de uma profunda moralidade. Era um homem que tinha uma fé religiosa e respeitava as regras da moral cristã que considera que os homens merecem viver numa atmosfera de ordem que lhes permite trabalhar, cuidar da família. De Emilio Garrastazu Medici tenho boas lembranças. Conheci-o na embaixada da França, conversamos em português. João Figueiredo era adorável, sedutor. Era o chefe do SNI quando eu cheguei como adido. O representante francês dos serviços especiais no Brasil me disse: "Todo mundo sabe que você fez parte do serviço de inteligência francês, principalmente do "Action", logo, não deve esconder. Você vai encontrar Figueiredo, chefe do SNI, não esconda que você pertenceu ao serviço equivalente na França".

FOLHA - E vocês ficaram amigos?

AUSSARESSES - Muito amigos. Acho que Figueiredo apreciou minha conduta em relação aos brasileiros. Minha contribuição foi apreciada. Minha colaboração foi frutuosa para eles e para nós.

FOLHA - Quais são os fundamentos que justificam o uso da tortura numa guerra ou como no caso do Brasil, nos anos 60 e 70?

AUSSARESSES - Acho que, se podemos evitá-la, nada a justifica.

FOLHA - E quando é que não se pode evitá-la?

AUSSARESSES - Quando a ação terrorista adversa quer ter efeitos de propaganda e tem por vítimas sobretudo mulheres e crianças. Penso que, se a tortura pode evitar a morte de inocentes, ela se justifica. É meu ponto de vista. Não a aprecio, não a aprecio, não a aprecio.

FOLHA - Na Argélia, o sr. e o general Jacques Massu estavam de acordo com todos os métodos de informação, inclusive a tortura?

AUSSARESSES - Totalmente de acordo. Mas quando houve o ataque de Philipeville, Massu ainda não estava comandando os pára-quedistas. Descobri que ia haver um ataque porque havia compras diárias de uma enorme quantidade de farinha de cuscuz num armazém. E tudo era comprado em dinheiro. E as notas de dinheiro vinham da França, do salário dos operários argelinos. Foi meu serviço de informação que descobriu tudo.

FOLHA - Parece que foi por causa de compras em uma aldeia que Che Guevara e seu grupo de guerrilheiros foram descobertos na Bolívia.

AUSSARESSES - Penso que Che Guevara era um homem brilhante, muito inteligente mas ambicioso. Ele queria substituir Fidel Castro, mas Fidel não estava apressado em deixar o posto de chefe de Estado de seu país e enviou-o em missão à Bolívia com outro homem muito brilhante que ainda está vivo, Régis Debray. Então, Fidel Castro quis dar uma ocupação a esses homens brilhantes e enviou-os em missão à Bolívia.

FOLHA - O sr. pensa que Fidel Castro armou uma cilada?

AUSSARESSES - Eles eram brilhantes, mas bebiam muito e os espiões de Fidel Castro ouviam o que eles diziam. E eles escreviam também, escreviam demais e quando foram para a Bolívia as forças de segurança bolivianas sabiam de todos os detalhes dos deslocamentos deles. Debray foi capturado rapidamente e depois encontraram sua agenda, uma bela agenda Hermès, de couro.

FOLHA - E quem os denunciou?

AUSSARESSES - A tagarelice deles.

FOLHA - Mas a CIA [serviço de inteligência dos EUA] estava na Bolívia.

AUSSARESSES - Claro, que dúvida!

FOLHA - O senhor foi sempre anticomunista? AUSSARESSES - Sempre. Não me vanglorio disso, mas também não nego.

FOLHA - Hoje, após a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética, qual seria o grande perigo para um país como a França?

AUSSARESSES - A organização terrorista maometana, árabe, os islâmicos.

FOLHA - A maioria dos militares pensa que o dever é manter o silêncio. Por que o sr. resolveu falar?

AUSSARESSES - Porque penso que era meu dever falar.

FOLHA - Mesmo arriscando a sua reputação?

AUSSARESSES - Há regras de vida e da carreira militar que tratam do dever. Eu fiz o que era meu dever.

FOLHA - No livro anterior, "Services Spéciaux - Algérie 1955-1957" (Serviços especiais - Argélia 1955-1957), o sr. contou a participação na guerra da Argélia, inclusive o uso da tortura. Em 2003, foi processado por apologia a crimes de guerra, mas não houve condenação. Os crimes estavam prescritos e anistiados. Por que agora esse livro de entrevistas?

AUSSARESSES - Fui levado à Justiça por apologia à tortura. Disse que não era verdade e que escreveria outros livros para me justificar de tudo o que tinha feito em missões fora da França. Escrevi um outro livro depois, que era uma resposta aos ataques injustos contra mim. O livro é "Pour la France, Services Spéciaux, 1942-1954" (Pela França, serviços especiais)

FOLHA - O senhor se arrepende de algo que fez?

AUSSARESSES - Não me arrependo de nada. E recusei uma proposta que me foi feita no tribunal, quando fui acusado de fazer a apologia da tortura, o que não é verdade. Meu advogado e meu editor me propuseram declarar que eu me arrependia do que fizera e do que escrevera.Não posso, não me arrependo, eu seria desprezado por minha mulher. Minha falecida esposa era uma heroína da Resistência Francesa antinazista, foi ferida em combate. Fomos casados por mais de 50 anos. Ela morreu e depois me casei novamente. E, se eu escrever que me arrependo, merecerei o desprezo de minha atual esposa. Recusei o arrependimento que me propunham e fui condenado.

sábado, 3 de maio de 2008

Entrevista



Reproduzo entrevista minha publicada no BLOG Acerto de Contas.



Um dos coordenadores da pesquisa sobre Teromômetro da Insegurança e Vitimização na Cidade do Recife, Adriano Oliveira, conversou com o Acerto de Contas.

Adriano é doutor em ciência política, e especialista em violência. Atualmente está trabalhando no Instituto Maurício de Nassau, patrocinador da pesquisa.
Segundo ele, o alto percentual de pessoas que conhecem alguém vítima da violência não surpreendeu, já que Recife é a capital mais violenta do país.

Segue a entrevista com Adriano Oliveira.
Qual é a contribuição da pesquisa?
Mostrar a realidade criminal do Recife. Saliento que as pesquisas de vitimização são raras no Brasil. Analisa-se a dinâmica da violência, as instituições policiais. Mas esquecem de ouvir as vitimas. Veja que uma pergunta é inovadora em nossa pesquisa, isto é: você conhece alguém vítima de homicídio em Pernambuco? Os dados, em parte, têm condições de orientar a política de segurança do Estado.
Foram surpresa os resultados?
O porcentual de pessoas que conhece alguém vítima de homicídio em Pernambuco não foi surpresa de modo algum. Recife é a capital mais violenta do Brasil. Não foi surpresa o fato, também, de que as pessoas de baixa renda conhecem mais indivíduos que foram assassinados. O homicídio faz parte do cotidiano dos pobres.
A população confia na Polícia?
Os dados da pesquisa mostram que não. Isto evidencia, portanto, que os dados oficiais não representam a realidade, exceto os dados sobre homicídios. Nem todos que sofrem algum tipo de delito procuram a Polícia. E quando procuram, a maioria não recebe nenhuma satisfação dela. Então, por que ir até a Polícia se ela não me trará nenhum benefício? A ausência de confiança na Polícia foi construída historicamente. Claro!
Se a população não confia na Polícia, temos baixa sensação de segurança?
Sim. Os pesquisados atribuíram, em média, numa escala de 0 a 10, 3,8 à sensação de segurança. Observem que quanto mais próximo de zero o porcentual estiver, mais insegura a população está. Os entrevistados afirmam que não confiam que a Polícia lhes proteja. Eles têm razão. Se a Polícia não prende o criminoso, qual é a razão, repito, de alguém prestar queixa à Polícia? Acredito que nenhuma. Mas, claro, a culpa dos índices de criminalidade no País não é exclusivamente da Polícia.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

A pesquisa ainda repercute

BLOG Acerto de Contas, 01/05/2008
Na pesquisa da Maurício de Nassau, que este blog (Acerto de Contas) está divulgando, o dado que mais chama a atenção é o percentual de pessoas que já foram assaltadas em vias públicas na cidade do Recife: 44,6%.
O mais impressionante é o percentual que respondeu (entre os que foram assaltados) que foi assaltado nos últimos 3 meses: 19,2%.
Para 56,3% dos assaltados, este ocorreu nos últimos 2 anos. Como ser assaltado não é uma experiência muito agradável, entende-se que o entrevistado dificilmente errará na resposta.

O bairro da Boa Vista é o campeão de assaltos, seguido de Boa Viagem, conforme resposta dos entrevistados, apresentado na tabela abaixo.

O item que aparece com maior incidência de resposta, quando perguntado o que lhe roubaram, é o celular. Em seguida vem dinheiro, carteira e bolsa.

Alguns resultados da pesquisa realizada pelo Instituto Maurício de Nassau



Você já foi vítima de assalto em via pública? Responderam que sim, 55,4%.

Você mudou seus hábitos/costumes para se proteger da violência? Afirmaram sim, 59,7%.

Você quando sai de casa tem medo de não voltar para casa por causa da violência? Frisaram que sim, 62,85%.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Qual é a sua opinião quanto ao Contado de Homicídios?

Você já subornou algum policial? Dos votantes, 55% responderam que sim. Portanto, a maioria (óbvio). Pergunto: quem corrompe a Polícia tem legitimidade para cobrar eficiência dela no combate à criminalidade? Claro que não.


Vamos esquecer! Proponho nova enquete.

Qual é a sua opinião quanto ao Contado de Homicídios? O Contador de Homicídios aberto foi criado pelo Instituto Maurício de Nassau e o PE BODY COUNT. Antes do lançamento, o Instituto Maurício de Nassau divulgou pesquisa inédita sobre as vítimas de violência na cidade do Recife. Dentre as diversas informações da pesquisa, uma está diretamente relacionada com o contador de homicídios: 64,2% dos entrevistados conhecem vítimas de homicídio. Aguardo a sua opinião!

Um protesto permanente pela Vida


Repercussão

Jornal do Commercio, 01/05/2008
Maioria conhece vítima de homicídio Publicado em 01.05.2008

Estudo revela que 64,2% dos recifenses tinham relação com pessoa assassinada. Entre mais pobres, número chega 69,1% e na classe alta, fica em 17,5%Thiago Neuenschwander
tncavalcante@jc.com.br

Pesquisa divulgada, ontem, revelou que 64,2% dos recifenses conhecem vítimas de homicídio. A situação exposta é ainda mais alarmante quando os dados são estratificados de acordo com a renda mensal do cidadão. Entre os mais pobres, com ganhos menores a um salário mínimo (R$ 415), o índice chega a 69,1%. O número permanece alto entre aqueles que ganham até cinco salários e começa a decair entre os mais abastados, chegando a 17,5% para os que recebem acima de dez mínimos.

Os dados fazem parte do trabalho Termômetro da insegurança e vitimização na cidade do Recife, do cientista político Adriano Oliveira e do Instituto Maurício de Nassau. Eles foram apresentados a uma semana do primeiro aniversário do Pacto pela Vida, projeto lançado pelo governo estadual para tentar reduzir os alarmantes índices de violência registrados em Pernambuco. O objetivo da Secretaria de Defesa Social (SDS) era reduzir em 12% o número de homicídios no primeiro ano, mas a diminuição deverá atingir entre 7% e 8%, segundo o coordenador José Luiz Ratton, que esteve no lançamento da pesquisa.

Os subsídios para o estudo foram recolhidos em entrevistas realizadas com 795 pessoas residentes em 40 bairros de todas as áreas da capital. A pesquisa tem como mote principal o sentimento de insegurança do cidadão diante da incapacidade do poder público em conter a violência cotidiana registrada em Recife. Diversos números corroboram essa sensação, como o fato de 79,8% dos entrevistados não acreditarem que a polícia possa proteger os moradores da cidade. “Historicamente, a polícia não presta contas à sociedade. Por que então a população confiaria nela?”, questionou Adriano Oliveira. Outro dado significativo mostra que após sofrer qualquer tipo de violência, 59,7% das pessoas mudaram seus hábitos para escapar de novas ações.

Em alguns dos bairros selecionados pela pesquisa, casos de violência são facilmente encontrados entre os moradores. A comerciante Solange Barbosa, residente do bairro da Boa Vista, área central, contou a história de uma mulher que matou o próprio marido, que era policial, com a arma utilizada por ele em sua função profissional. Em Santo Amaro, mesma região, a dona-de-casa Edna Maria da Silva diz ser comum a morte de jovens da vizinhança por causa de problemas com drogas e bebidas. “Já presenciei alguns casos perto de onde moro, mas nada com a minha família”, comentou.

O trabalho conclui que, apesar de estar inserida em toda a sociedade, a violência atinge de maneira mais intensa a população de baixa renda. Crimes ligados a pessoas com ganhos elevados, como seqüestros, geralmente são resolvidos pelos grupos especializados da SDS. Para o pesquisador, a vítima de um delito não confia na instituição que tem a responsabilidade de protegê-la, uma vez que ela não se mostra eficiente para prender os bandidos. Ao mesmo tempo, a falta de confiança faz com que as pessoas não procurem a polícia, o que provoca uma discrepância entre os dados oficiais divulgados pelo Estado, e a realidade criminal existente na capital pernambucana.